Prezada comunidade Trans, LGBTQIA+ e todo público interessado no filme "Agreste",
Publico este texto para compartilhar minha posição sobre o fato de ter escalado um elenco cisgênero num projeto em que a questão de gênero e orientação sexual são determinantes para a trama baseada no aclamado texto de Newton Moreno.
Em 2018, ano da pré-produção do longa, eu não tinha a consciência que hoje tenho sobre essa pauta e, escalei um ator cisgênero para interpretar o papel de um homem trans. Escalei esse ator por conhecer seu trabalho de longa data e confiar que ele corresponderia ao que eu pretendia do personagem na tela. Foi o que eu pude fazer naquele ano que parece próximo mas que já vai longe dado tudo que aconteceu no planeta e especialmente no Brasil nos últimos anos.
Agradeço de coração pelas suas lutas, que tanto têm ensinado a sociedade como um todo e a mim em particular.
Hoje reconheço a importância que escalar artistas e técnicos transgêneros tem, tanto para a comunidade diretamente envolvida quanto para a diversidade e para a aplicação efetiva de valores da cidadania na produção cinematográfica brasileira. Entendo que a inclusão de atores trans em papéis trans ou cis é da maior importância para a expansão do campo de trabalho de toda a comunidade.
Nós realmente tentamos integrar profissionais desta comunidade em outras funções determinantes na equipe, além de termos feito consultorias com um grupo de artistas trans, mas hoje reconheço que deveria ter feito isso com mais determinação do que fiz naquele momento.
Aprendi muito com estes anos de Agreste. Me proponho a participar de debates e discussões públicas que promovam um diálogo construtivo sobre o tema.
Estou iniciando novos projetos e estou determinado a me retificar nesta questão. Me comprometo a contratar profissionais trans para fazer parte deles, sejam como atores, como parte da equipe criativa ou da equipe técnica.
Reconheço que a indústria do cinema tem papel significativo sobre questões sociais, pois, por meio de seu alcance, ela pode trazer mudanças profundas na sociedade e com isso, combater a violência contra pessoas transgêneros no Brasil e no mundo, dando oportunidades para que talentos Trans ocupem seus legítimos espaços.
Com respeito,
Sergio Roizenblit
Diretor do filme "Agreste"